Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Fabuleux destin d'Ana

Não existe lugar para o acaso ...

Fabuleux destin d'Ana

Não existe lugar para o acaso ...

Istanbul em mim ...

 

As ruas, os mercados, as ruelas e as avenidas não são muito diferentes das ruas da nossa capital  … alias, a uma certa altura não sabia bem se andava em Lisboa, estava confusa com as ruas do bairro Beyoglu,  pois são uma fotocopia do nosso bairro alto, tanto em barulho nocturno como em local de encontro de varias gerações.  Só as vozes que ecoavam nos minaretes a horas certas me relembravam que estava na cidade antiga capital de três antigos impérios e então fechava os olhos e magia oriental ressoava em mim.

 

Destes dias em que andei bem longe dos guias e mapas turísticos, guias e mapas que tornam a cidade objecto de adoração ( algo sem alma, somente consumista) encontrei uma cidade somente á espera de ser contemplada com todos os nossos sentidos.
Andar perdida nos mercados de especiarias e nas ruas estreitas, são incensuráveis para conhecer as pessoas, olha-las, senti-las e com isso fazer parte daquele mundo (que para nós esta tantas vezes distante).
Viver uma cidade, seja ela qual for, tem de ser assim e não de outras maneiras ditas turísticas  … andar de transportes públicos, estar em filas, ajudar uma pessoa ao nosso lado, cheirar as comidas que são cozinhas da rua, ouvir as palavras dos vendedores que se repetem vezes sem conta na esperança que alguém as ouça, esperar pelo autocarro, entrar no autocarro errado seguir a linha do metro porque sabemos que nos leva a algum lado, não saber em que ruas estamos mas mesmo assim andar com confiança, regatear o preço em português ou em turco ou em outra qualquer lingua previamente fabricada, tudo vale pois a compra é somente um pormenor e regatear uma arte, isto e muito mais, chamo: estar na cidade.
Não gosto de viver o que os outros vivem, o detalhe faz a diferença, faz-me essencialmente sentir viva!!! E sentir viva é andar nas artérias da cidade, onde realmente se encontra a cultura, o tradicional. É fácil de encontrar estes cantos pois em todas as esquinas existem uma lembrança do passado, dos impérios, das guerras, dos sultões e de pessoas que por ali passaram deixando cair acidentalmente sonhos e esperanças …
Istanbul – a cidade fronteira, tem outra particularidade, para além daquelas já publicadas e assinadas por ditos viajantes, existe algo que nunca ninguém imprimiu ou rabiscou, nunca ninguém redigiu um texto no qual descrevesse o tão sublime e excepcional é o pôr sol da Turquia !!! Agora que sou eu a escrever … penso que nunca ninguém o fez porque não existem palavras para o decifrar ( ou pelo menos eu não as tenho todas, as mais acertadas).  É um cor de rosa suave misturado com um azul celeste que se combina numa dança fenomenal para os sentidos . Se pararmos um pouco será fácil ouvir os passos desta dança de cores … ambas movem-se lentamente mergulhando por entre as casas que se perdem de vista amontoadas ao logo do Bósforo sobressaindo sobre os minaretes das mesquitas . Se estivermos na ponte Galata Koprusu, que une as duas margem do Corno do Ouro então teremos a certeza de como é o paraíso – pelo menos a nível de cores,  pois a ponte concentra centenas de pescadores  que mostram a sua paciência e valentia, amontoam-se nos lados extremos da ponte, fazendo lembrar as velhas historias tradicionais, onde os pescadores são caçadores de tesouros!!! Lá os tesouros resumem-se a uns peixes minúsculos que ficam a nadar dentro de uns garrafões de água ate perderem o folgo. É no meio deste cenário que o sol sai devagarinho de cena dando lugar a uma lua gigante …
            Ao contrário da falta de descrições do(s) pôr(es) do sol turco(s), do Bósforo muito se escreveu, pobre rio possui uma tarefa pesada e tem as suas costas a função ingrata de ser fronteiras de dois mundos, para além da herança legada de unificar continentes. O Bósforo não é um rio calmo, ao contrario dos rios europeus pomposos, este guarda revoltas e guerras internas é um rio com personalidade forte e vincada,  sabe de onde vem e para onde vai, tem o destino bem traçado, não se deixando perder entre as centenas de barcos o que tornam uma auto-estrada marítima.  É um rio mistificado por lendas e histórias bizarras. Murat o primeiro depositário das nossas confianças (couchsurfing) numa das nossas conversas utilizando um inglês perfeito mas nem sempre compreendo por mim, contou-nos que em anos antigos quando nevava o rio ficava um autêntico glacial, onde as pessoas passavam de uma margem a outra a andar, nessa noite pedi aos “deuses” para nevar …
A neve não apareceu , infelizmente …
Apareceu sim a oportunidade de assistir a uma oração muçulmana na grande mesquita Nova (junto o rio no lado europeu), não sei porque razão lhe chamam “ Nova” pois aquela mesquita está em frente ao  Bósforo já lá vão mais de quinhentos anos. Sem fazer barulho e sem sapatos com um lenço colorido a cobrir a cabeça entramos devagarinho para assistir a um ritual a que muitos condenam e a muita controvérsia tem dado assas – as rezas , se é assim que se podem chamar, muçulmanas. Eu gosto de rituais – especialmente estes, não sei porque. Saboreei  todos os movimentos dos homens, foi o tempo do parar do estar longe da agitação citadina e sem perceber uma única palavra do que se dizia aceitei-as todas elas, tornando-as minhas. Por momentos, sentada naquele chão de alcatifa de azul e vermelho (ambos extremamente organizado), olhava para todos os gestos que cada homem a minha frente faziam, o passar o polegar pelas orelhas, o levantar , o baixar , o rodar a cabeça para a direita e para a esquerda, o ajoelhar todos estes movimentos entranham-se em mim e foi então que o espírito da cidade ( sim, todas as cidades tem um espírito) abraçou-me dando as boas vindas.