Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Fabuleux destin d'Ana

Não existe lugar para o acaso ...

Fabuleux destin d'Ana

Não existe lugar para o acaso ...

Soares, o padrinho do meu pai ...

 

Esta coisa de se ter sido uma criança sonhadora e livre pode ter realmente alguns episódios dignos de embaraço agora que somos todos adultos e cheios de manias e boas maneiras. Todavia, resgatar a nossa infância (com todos os episódios embaraçosos que uma boa infância deve ter), cá para mim é umas das tarefas que mais coragem nos exige.

 

Quando a minha idade não chegava nem perto da meia dúzia eu acreditava fortemente que o Mário Soares era o padrinho do meu pai (mais uma figura pública que fazia parte da minha família). A minha avó Fátima, mãe do meu pai era socialista e falava tanto do Mário Soares lá por casa que me habituei tanto a ele como à minha tia Rosa (irmã da minha avó que vivia no Algarve e só a via de tempos a tempos quando o rei fazia anos ou quando o natal se aproximava). Desta maneira não podia esperar que esse padrinho que até era Presidente da República, com tanto trabalho a tomar conta do país tivesse tempo, disponibilidade e feitio para nos visitar em Sesimbra.

 

Penso eu, (agora que a idade avançou um bocado) que este laço familiar foi criado porque o meu avô paterno sempre foi uma incógnita na minha vida de criança, mais parecido a um buraco negro, não existia mas também não havia registo de óbito da personagem o que me dava um terreno fértil para a minha mente imaginativa criar esta estória fabulosa. E foi isso mesmo que aconteceu. Algures lá trás nos anos 80, numa das muitas tardes que passava em casa da minha avó, ela terá certamente (e como era habito) enaltecido a bondade, a benevolência, a generosidade, a nobreza do presidente para com os pobres, agora que escrevo estas palavras consigo a vê-la sentada no sofá em frente à televisão em 1986 a dizer “Soares é fixe”. E assim nasceu Soares o fixe, que era tão fixe que podia ser o padrinho dos meninos que não tinham pais. Não ganhei um avô (já tinha um que me enchia o coração), ganhei uma estória que me enchia de orgulho, havia alguém (real) que tomava conta dos meninos pobres sem pais, os amparava e os ajudava e isso bastou-me para me juntar aos crescidos nos festejos quando o senhor /padrinho ganhou as eleições. Com esta fantasia consegui proteger o meu pai do abandono, da fome, da miséria e dei-lhe o conforto que ele nunca teve em criança.

 

Anos mais tarde fiquei a saber a estória do avô mistério, mas o padrinho ficou-me para sempre. Isto é, até hoje.