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Fabuleux destin d'Ana

Não existe lugar para o acaso ...

Fabuleux destin d'Ana

Não existe lugar para o acaso ...

Kilkenny ...

 

Assim como Dublin, esta aldeia ganhou o meu respeito ainda o autocarro não tinha parado… faltava a alguns km para chegar, quando me apercebi da energia mítica, pura, extraordinária e lendária que ia percorrendo cada célula do meu corpo, em cada curva deixada para trás era sempre mais disso, disso que não tem nome… percebi ainda antes da paragem final que seria amor. kilkenny já fazia parte de mim e ainda não tinha respirado o ar dessa aldeia medieval …

Quando se chega a Kilkenny de autocarro a primeira coisa que se vê é uma igreja no outro lado da rua, igreja essa de um século distante e perdido. Então nesse ápice entre a chegada e o colocar a mochila nas costas (mesmo sem nos darmos conta) somos colhidos pelo autentico misticismo da Irlanda … deixamos este mundo, para acreditar nos druidas, nos duendes verdes, nas fadas, nos seres fantásticos. Todo esse universo enigmático deixa a imaginação, deixa as paginas dos livros para nos espreitar nas esquinas, para nos observar no cimo das arvores, ou mirar por entre as ruínas de uma outra casa senhorial … somos então coagidos a dizer “ sim, a magia existe e esta aqui” !!!

Penso, e penso seriamente neste assunto; toda a casa tradicional irlandesa deveria ser considerada património da humanidade. Todas elas (as casas) camuflam histórias de outros períodos (alguns desses períodos nem fazem parte dos manuais escolares… ficaram simplesmente perdidos). E das poucas casas que não tem este historial de memorável, os donos inventam-no, mas inventam-no tão bem inventado que não se dá pelo embuste, a veracidade das histórias é a mesma. Trágicas historias, de homens que morrem de amores ou de loucuras (que para mim são a mesma coisa), homens irlandeses com forte sotaque que se refugiaram longe das gentes para compreender o sentido da vida.

O engraçado destas casas prende-se com o facto de possuem pelo menos um fantasma de estimação (caso não o tenham desconfiem do proprietário). Todos esses seres além mundo fazem parte da moradia, tal e qual com a mobília, ou são considerados familiares distantes e claro, ninguém os leva a mal. A nós, turistas, não nos resta alternativa se não acreditar e beber uma cerveja (não vá de todo o fantasma de estimação da família se virar contra nos…)

O castelo de Kilkenny oferece alguns dos fantasmas mais simpáticos de toda a aldeia, fantasmas esses muito bem referenciados pela guia turística que destacou-os com currículos de raras aparições e gestos simpáticos para com os visitantes. Eram as personagens principais de fantasias e alegorias que metem respeito ate ao mais céptico dos ateus. Contou de uma forma sublime a simpática guia, de cabelo preto e franja curta que recordava a nossa Beatriz Costa, de como as aparições estava incluídas no preço do bilhete. Contou ela a história da mesa amaldiçoada que em tempo servia de pouso para os defuntos, emocionada relatou que noutros tempos, quando tentaram retirar a mesa daquele local, a mesa não se mexeu, chamaram então os homens mais fortes do condado e a dita mesa continuava no mesmo lugar, nem um centímetro oscilou (a força do outro mundo desconhecido era sem duvida mais forte do que a dos simples e desajeitados seres humanos). Para mim não passava de uma teimosa e vaidosa mesa (digo isto agora que estou longo dos espectros …)

Enquanto andava pelos corredores do castelo (sempre de olho nos quadros da parede que me examinavam a cada passo) pensei na palavra “castelo”… para nós portugueses, castelo é uma muralha construída no cimo de uma serra, pelos mouros ou pelo D. Afonso Henriques (ou outro rei …) , um espaço aberto com uma igreja pelo meio (não fosse Deus mostrar a sua zanga de não fazer parte da realeza). Na Irlanda, castelo é uma casa, uma grande casa, com um grande jardim e com um grande muro a sua volta… Segundo contou a guia que já no fim da visita era uma total “Beatriz Costa”: “(…) no castelo de Kilkenny ate bem a pouco tempo vivia uma família dita real.” … Acreditei pois esta claro, afinal tinham deixado por lá as botas e uns quantos pertences em exposição, segundo a mesma a culpa de o castelo estar tão “nú” de objectos pessoais dessa dita familiar real era dos ingleses!!! Não percebi mas na Irlanda tudo o que corre mal é culpa dos ingleses… como diz o ditado popular, aqui alterado para as circunstancias em causa: “em casa de irlandês sê irlandês …” ora malvados ingleses!!!

Deixando o castelo e os seus habitantes (sejam eles deste ou de outro mundo) só existe um caminho a seguir … o caminho fantástico que nos leva ao pub !!! Engraçado em Portugal o Pub é uma taberna … digo isto pois o cheiro é mesmo, uma mistura de vinho tinto barato com agua, regado de cerveja tudo misturado com o pano mais sujo que possa existir nas redondezas!!! Em Portugal na taberna canta-se o fado e na Irlanda no pub canta-se musica tradicional irlandesa. E tanto o fado como o folclore irlandês, contam histórias tristes de homens que partiram e contam-se as esperanças de dias melhores. Hum, vou ser franca prefiro a alegria popular irlandesa … (se é para viver a tristeza pelo menos que o façamos com palmas e cerveja da boa na mão)

Kilkenny, ainda tenho tanto para contar deste lugar …

Dizem que existe um exacto momento de conexão com o divino, também dizem que existem locais mais apropriados para isso (e na verdade sempre pensei que esse local não existisse. Esse local será onde está o nosso coração puro e verdadeiro) contudo, lá de cima chegou-me uma partida … e foi em Kilkenny numa igreja que encontrei na parte velha da aldeia que o peito se abriu, que as modas e manias da vida moderna desapareceram e ouvi plenamente a voz “Dele” … nunca, mas nunca mais mesmo as coisas foram iguais!!! Abriu-se um mundo novo, uma estrada nova, uma visão diferente (difícil é verdade) mas que me tem conduzido a um local espantoso: a mim !!!

É difícil compreender isto, difícil de creditar, difícil aceitar …

Mas não estou a pedir nada disso, estou somente a partilhar (depois de um ano) esta minha experiencia numa aldeia irlandesa (que mal vem nos mapas) que modificou a minha vida.

O casamento irlandês, as noites no pub, a pousada que não tinha hospedes, os cemitérios fantasmagóricos, a francesa que andava a dar a volta a Irlanda de bicicleta… fica para outro dia pode ser?

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