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Fabuleux destin d'Ana

Não existe lugar para o acaso ...

Fabuleux destin d'Ana

Não existe lugar para o acaso ...

Meu querido, meu muito querido João dos Santos...

 

 

A minha educação foi a de esperança

 

“Trata de ser como és, revivifica perpetuamente os teus actos e as tuas palavras com um pensamento criador, não deixando qualquer lugar à convenção, porque aquilo que acreditas ser um simples ridículo mudando ou uma simples maledicência é a morte de espírito. Continua a viver sinceramente, irrespeitosamente, não no sentido religioso, mas no da imortalidade da literatura.”

 

Fui educado na liberdade por um pai que se batei pela República sob as ordens de Machado dos Santos.

Fiz a minha educação primária no Bairro Andrade e no Largo do Intendente, onde havia a capelista dos bonecos de estampar e dos berlindes e a loja do Senhor Ferro, um velhote simpático que vendia à rapaziada lá do sítio, relógios de sol, piões, pregos, martelos e arames para as nossas pequenas construções. O Senhor Ferro era o pai de um homem, que um dia, inventou o culto programado de Salazar.

(…)

Vi entrar em Lisboa Gomes da Costa e vivi desde então na esperança duma liberdade que o meu pai me ensinou no dia a dia do conviver-conversado; no culto da natureza e dos desportos não competitivos; dos cursos de esperanto e das conferências, discretamente libertárias dos esperantistas e naturistas.

Aprendi com o meu pai, que por causa da politica se não podia dizer lá fora aquilo de que se falava em casa, entre amigos.

Visitei meus tios na “residência fixas” e nas cadeias do Aljube e vi partir alguns para o exílio forçado por motivos das suas ideias.

Tomei conhecimento de que se não devia cometer a ignomínia de votar em eleições de resultados pré-determinados pelo poder.

Casei com a filha do Senhor Grijó – um lutador republicano com vinte anos de cadeia e de exílio e que por ter tido este pai, foi condenada à perpetuidade: não podia trabalhar em serviços de Estado. Assisti e resisti na medida das minhas forças ao que o fascismo nos impôs: as guerras de Espanha, Mundial e de África.

Desde de jovem compreendi que a Educação e a Saúde tinham que ver com a democracia e que eram incompatíveis com a ausência de liberdade.

Lutei como pude, no meu desajeitamente politico.

Arranjei maneira de trabalhar para ganhar a vida (…). Ensinei, os meus filhos e aos meus discípulos, que se deviam preparar para lutar – desde já, desde de sempre – para que “um dia” pudessem trabalhar com dignidade e com saber, para a Educação e para a Saúde do povo e para o bem estar de todos.

O dia chegou. Saí de manhãzinha de casa. Como é habitual. Vi a tropa na rua a barrar-me o caminho e disse mais uma, com uma indignação velha de 48 anos, uma palavra forte.

Enganei-me, eram os outros…

Tirei do bolso o caderno de notas, que sempre me acompanha, e escrevi em francês, talvez por ser a língua que, num curto exílio, liguei à liberdade:

“une hirondelle ne fait pas le printemps” (25.4.74): pus um cravo rubro ao peito e andei por aí. (…).

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